REALISMO FANTÁSTICO

“Estava mais angustiado, que um goleiro na hora do gol”...

Sem ainda ter cumprido todos os protocolos da vida adulta, que não os conjugais de nossas comunais opções e de todas as possibilidades, aí já embargadas, no desenrolar dos tempos entre os casais. Ora, como eu adorava berrar poemas simbolistas em francês, a esmo, trepado sobre os janelões de nossa casa, perdidos entre tantas dezenas de outros iguais, naquela imensa torre de pedra!

“Aí, um analista amigo meu, disse que desse jeito, não vou ser feliz direito”...


Ah, uma filarmônica urbana de motores tremendo; buzinaços desafinados; velhas usurpadas, tropeçando em degraus; pivetes, trocando tiros com policiais. Ah, e os odores cancerígenos dos combustíveis, sacralizados às vistas das nossas “janelas postais”! Ah, bêbado, eu me imaginava após a queda do décimo-quarto e o povo - muito abaixo daquelas nuvens e a neblina suja, constante invasora dos nossos cômodos decadentes –, protegê-los-iam do mormaço, os seus olhos a espantar-se com o bater das minhas asas fantásticas, como num cenário dos “realistas maravilhosos” das novelas latinas.

“Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual”...

A fatalidade da primeira juventude, da falta de horários, de compromissos, o total abandono e o desleixo da faculdade. Eu lembro: já era Cult, no jornalismo, estudar Deleuze, Nietzsche e pós-estruturalismo.
“Deixando a profundidade de lado, eu quero ficar colado à pele dela noite e dia”...
Eu lhe vi no remanso do lirismo e nada, absolutamente, de filosofia, ciência ou literatura havia escrito!

“Fazendo tudo de novo, e dizendo sim à paixão, morando na filosofia”...

Aqueles ventos, aquém dos salões arejados de nosso apartamento, me molestavam as tardes ressaqueadas, você escrevia em diários amarelados, ouvindo algo existencialista – sempre Belchior, acho -, entre pilhas de livros espalhados. Cheiradaço, eu contemplava os ciclos dos meus arbítrios niilistas, agarrando-a para não desfalecer naquele meu toque doentio.

“Eu quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno. Viver a divina comédia humana onde nada é eterno”...

E deixava-se repousada, permitindo que eu me acomodasse aflito, próximo à sua nuca, enquanto o seu olhar virava contrariamente em interlúdios que eu pouco entendia. Sua compreensão, só se permitia no tempo certo dos seus amores. Você, nessa época, já não era minha! Eu me imantava em sua fábula e deste segredo, sabia. Porém, eu não entrevia quem você pensava, entre o meu trágico abraço e o embaço de suas retinas.

“Enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.


*Incidência da letra da música “A divina comédia humana”, de Belchior.



(RODRIGO DE OLIVEIRA)

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